São Paulo, Buenos Aires, Montevidéu

A tradução mais importante que já fiz

11/06/2016

Foi  difícil diminuir a velocidade do meu coração. Ainda estava agitada pelo dia de ontem, e o resultado, que tenho em minhas mãos, hoje.

 

Quando eu estava no 4º ano de Arquitetura, já sabia que aquela não era a minha vocação. Mas, estudando em faculdade particular (e cara), meus pais não acharam graça: pagamos 4 anos, agora você faz o 5º e tira o diploma. Me formei com 9, e nunca fui buscar o diploma na faculdade. Sempre disse que a arquitetura só serviria para fazer a reforma da minha própria casa – e realmente serviu.

 

Minha carreira atual, diferente da arquitetura, tem um lugarzinho quentinho e cuidadinho dentro do meu coração. Me apaixonei pela vida de tradutora e trabalho com prazer. Até sinto saudades de trabalhar quando passo muito tempo de férias. Então não cabe dizer que a tradução “só serviria para”, porque serve para muitas coisas na minha vida, do cotidiano ao deleite intelectual.

 

Ainda assim, há alguns meses eu andava angustiada. Traduzo muitos documentos ou sites de empresas, o que, diferente da tradução de livros, significa que meu nome nunca aparece. Só aparece nos trabalhos de legendagem, mas como moro na Argentina, não vejo minhas traduções na TV nem no cinema. É só uma questão de ego, eu sei, mas ainda medito há muito pouco tempo para poder me libertar da vontadezinha de ver aquele trabalho lindão associado ao meu nome.

 

Ontem amanheço com a notícia de que havia uma entrevista com a Presidente Dilma Rousseff para ser divulgada na imprensa estrangeira. Era meu 9º aniversário de casamento e ainda tinha um trabalho urgente para fazer. Mesmo assim, entrei em contato com amigos que sabiam com quem falar para conseguir agitar a publicação, liguei o turbo para conseguir entregar o trabalho e começar a fazer a que provavelmente foi a tradução mais importante da minha vida: as palavras da presidente eleita pelo meu país, a primeira mulher a comandar o Brasil em toda a sua história. Independente do que eu possa opinar sobre seu governo, temporariamente sequestrado, considero-a de inegável importância histórica por seu passado, por seu simbolismo, por sua condição de mulher governante, por sua resiliência, sua inacreditável força, seu enorme coração.

 

Me atirei no trabalho. Traduzi do português para o espanhol, tarefa que costumo fazer em parceria com minha sócia uruguaia, mas desta vez sem a chance de mandar meu texto para a revisão dela. E traduzi à velocidade da luz, porque tinha que entregar em pouquíssimo tempo para entrar na edição de sexta-feira do jornal Página 12, talvez o terceiro veículo de maior importância na Argentina. Em uma tarde, com a ajuda de minha amiga Isabela Gaia e do jornalista Martín Granovsky, a entrevista, articulada por Marcia Tiburi e realizada por Antonia Pellegrino, passou pelos meus olhos, meu cérebro, minha alma, e saiu pelas pontas dos meus dedos, em espanhol, para ser então impressa em duas páginas na madrugada de uma sexta-feira gélida.

Eu até gostaria de poder dizer que fiz um trabalho impecável e que o texto que entreguei foi a melhor tradução que fiz na vida, mas é uma possibilidade remota. Acredito que nunca escrevi tão rápido. Ainda assim, pesquisei tudo o que tive que pesquisar, pensei minhas frases, escolhi minhas palavras, contei – se não com uma revisão de verdade – com a consultoria express da Giannina Greco, via whatsapp, interrompendo suas férias em Búzios, e escrevi e reescrevi trechos para dar a melhor versão que pude, no meu segundo idioma, às palavras dessa mulher admirável.

 

Fiz meu trabalho com amorosidade, orgulho e gratidão. E ainda fui jantar maravilhosamente bem com meu marido. Nosso brinde era aos nossos 9 anos e à minha participação na publicação da entrevista.


Amanheci, ainda comovida, e fui comprar o jornal. Lá está, no final do texto, depois das dezoito respostas da presidente, o meu nome como tradutora. Um dia bom. Por ele, agradeço.